Aventureiros
na Trilha do Telégrafo
25/07/2002
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Relato: Ricardo
Queiroz e Fausto Spina
Reconhecimento de moto da Trilha do Telégrafo - Ariri - Cananéia - SP
Depois de todas as informações que conseguimos com o
pessoal da lista (jipenet) e mais um monte de loucos que já passaram pela
região, resolvemos ir lá para conferir. Como o tempo era curto, achamos melhor
fazer o reconhecimento de moto, já que a trilha prometia bastante dificuldade.
Saímos (eu e o Fausto) na sexta-feira de SP, em direção
à Cananéia, com as duas motos revisadas até os documentos, e com equipamento
suficiente para passar uma semana no Afeganistão, sem a necessidade de
reabastecimento. Seguindo pela BR-116, passamos por diversos caminhões
"cegonha", carregados de Pajeros, L-200, Frontier, etc., rumo aos Sertões,
e pensamos diversas vezes em mudar de idéia (que maravilha!!!).
Depois de umas 3 horas de viagem, chegamos ao Clube de
Pesca Cananéia, que gentilmente cedeu suas instalações para nossos
preparativos para a tão esperada travessia (preparativos = trocar de roupa e
tomar umas brejas). Descemos as motos da pick-up, demos uma última revisada,
nos arrumamos e saímos em direção à Itapitangui, que é uma vila bem próxima
(uns 3 Km), onde saímos finalmente do asfalto e entramos na terra.
Como havia chovido durante os dois dias anteriores
(conforme informação dos locais), pegamos o início da estrada que vai
para Ariri, com um pouco de lama, e algumas poças para nossa diversão, mas
nada que um 4x2 não faça sem muito esforço e umas raspadas embaixo. Durante
esse trecho da estrada (+/- 35Km), não cruzamos (oops!!) com nenhum ser,
motorizado, à pé ou de jegue, mas próximo à saída para a trilha (conforme
nossa planilha mental), encontramos um ser que estava esperando uma carona (há
uns 3 dias pelo que disse), que nos informou o caminho para a trilha (que ninguém
sabe que é do telégrafo), que ficava há mais uns 4 Km, entrando à direita em
outra estradinha.
Aproveitamos para perguntar onde poderíamos tomar um
refrigerante ou até mesmo um suco, e ele disse que "talvez" tivesse
um bar antes do rio, mas que só servia pinga e cerveja (ficamos deprimidos...).
Andamos mais um pouco, até encontrar algumas casas, que foram aparecendo junto
com milhares de crianças, todas correndo atrás das motos (pensamos que era
arrastão), mas quando paramos, todas elas fugiram correndo... se assustaram
quando o Fausto tirou o capacete!!!
Depois de perguntar para um "transeunte" sobre o
improvável bar, conseguimos localizá-lo no alto de um barranco, mas quando
chegamos estava fechado e ninguém por perto (começou a tremedeira das mãos).
Logo apareceu a Dona Rosa, que é dona do bar que só abre quando aparece algum
freguês (umas 2 vezes por ano), e confirmou nosso receio: não tem suco, nem
refrigerante... só pinga e cerveja. Fizemos uma reunião de 3 segundos, e
decidimos que não poderíamos entrar na trilha "desidratados", pois não
sabíamos o que teria pela frente.
Conhecemos todos os habitantes (uns 50) da vila Taquari,
que vivem há mais de 40 Km do posto de saúde mais próximo, da escola mais próxima,
da farmácia mais próxima, e a 200Km do McDonalds mais próximo (o que nos
deixou mais preocupados ainda). Levamos uns 15 minutos para entender o dialeto
que eles falam na região, e mesmo assim saímos de lá sem saber muita coisa,
além de que a média de bernes "per capita" é de 3 para as crianças
e 8 para os adultos.
Depois de degustarmos umas latinhas, que curiosamente
estavam decoradas para a Copa de 98, achamos melhor não experimentar aquelas
garrafinhas com um líquido transparente, carinhosamente chamadas de
"Paulistinha", porque os comentários não estavam muito favoráveis
à nossa passagem, devido à chuva dos últimos dias... a informação mais
precisa é que tinham 4 mulas encalhadas há 2 dias, e sem previsão para sair.
Como não acreditamos em qualquer um, fizemos mais uma
reunião de 8 segundos, e resolvemos que iríamos em frente, para ver o que
realmente acontecia depois daquele rio com águas claras e calmas, com um fundo
de areia, e um barranco de uns 2 metros para subir do outro lado. Claro que
tinha uma picada que os pedestres usavam para passar, e foi por ela que começamos
a andar, mas depois de uns 30 metros, a picada sumiu e virou um tremendo
atoleiro, com muitos tocos para desviar e milhões de pegadas de cavalo, vaca,
mula sem cabeça, saci-pererê e tudo mais que passava por ali.
Seguimos adiante por mais uns 100 metros, passando por uma
casa, onde todos saíram na janela e porta para ver o que estava acontecendo,
eis que mais um pouco à frente, o Fausto enterrou a moto em um pântano até
afundar os joelhos na lama. Começou a trilha (pensei comigo)!!! Parei uns
metros antes, e desci para ajudá-lo a sair do brejo... tudo escorregando,
e eu também afundei até os joelhos, e não conseguia mais me mexer... depois
de uns 5 minutos, cheguei onde ele estava atolado, e junto comigo, dois meninos
de +/- 8 anos (o Elço e o Concon), que vieram da vila para ver nossa travessia.
Empurramos, puxamos, levantamos, chacoalhamos e nada da
moto sair do lugar... aí, uma brilhante idéia (do Fausto é claro!) de ajudar
a rodar a dianteira, e acelerar para sair do lamaçal. Foi uma tentativa apenas,
e eu me ví deitado no chão, com uma moto em cima de mim, quase me deixando
impossibilitado de exercer minha atividades sexuais. Depois de uma meia dúzia
de palavrões, o Fausto resolveu que deveria tirar a moto de cima, e não deixá-la
cair no brejo de novo.
Voltei para pegar a minha moto, e passei por outro lugar,
o que foi mais fácil que imaginava... mas não pude parar mais, pois pela
consistência do piso, se eu parasse, não conseguiria mais sair do lugar, e
teria que acionar os valentes ajudantes de trilha, que começaram a se divertir
em cada escorregada e encalhada que aparecia pela frente.
Começamos a perceber que os meninos estavam andando mais
rápido que nós, e ficavam esperando lá na frente, para ver onde iríamos
parar novamente. Durante esse primeiro trajeto (que não passou de 400m),
percebemos que o rio acompanhava a trilha pela esquerda, e que talvez poderíamos
andar por dentro do rio, que seria muito mais fácil que pela trilha. Depois da
tradicional reunião de 3 segundos, percebemos que se em algum lugar o rio
ficasse muito fundo, não teríamos condição de sair dele, porque suas margens
eram verticais e com quase 2 metros de altura.
"Existem lugares que um córrego atravessa a trilha,
mas entra na terra como se tivesse um ralo, passando por baixo de nós, e saindo
no rio. Se não visse o buraco (ralo), a moto se transformaria rapidamente em
submarino."
Percebemos que a trilha se dividia em várias, e começamos
a tentar fazê-la pelas outras passagens, que apesar de mais estreitas, pareciam
estar menos pantanosas. Tremendo engano, pois existiam crateras intransponíveis,
valetas profundas, pântanos pegajosos, e outros obstáculos que travavam a
passagem de qualquer tipo de veículo, exceto embarcações e aeronaves. Quando
voltamos para a trilha original, encontramos com 2 locais, que estavam vindo em
sentido contrário. Era o Pernambuco e o outro não se identificou (nem falou
uma palavra... devia ser mudo), mas que andava com um gato enrolado no pescoço,
parecendo um casaco de pele. Tem louco de toda a espécie nesse lugar, mas o
cara com o gato foi o ser mais estranho que encontramos.
O Pernambuco, pessoa simpática e comunicativa, disse que
era melhor voltarmos, porque prá frente a coisa estava "feia".
Considerando que levamos mais de 1 hora para passar por uns 700 metros,
resolvemos fazer uma reunião mais elaborada, com a presença dos nossos
ajudantes de trilha (Tico e Teco). Havia uma árvore derrubada ao lado da
trilha, onde sentamos confortavelmente para confabular, quando o Tico (Elço),
nos disse que aquilo era uma canoa, que estava sendo construída (ou
escavada?!?) pelo seu padrinho.
Perguntamos então, como eles iriam tirar a canoa daquele
lamaçal, pois pelo tamanho, a mesma devia pesar uns 500Kg. Ele nos disse que
iriam esperar a "enchente", e sairiam remando de meio da trilha até o
rio... decidimos que diante dos fatos, e da possibilidade de conhecermos a
"enchente", o melhor era voltar e procurar o boteco mais próximo para
nos recuperar. Pensamos também que para continuar, precisaríamos de mais
alguns equipamentos que não colocamos em nossa lista de necessidades, como um
helicóptero, seguro de vida, um guindaste, uma canoa, snorkel, nadadeiras, e
talvez até um escafandro.
No meio de nossa reunião, percebemos a ausência (sumiço)
de nossos ajudantes, e levantamos para procurá-los... eis que vimos os dois,
cada um com um capacete, apostando corrida à pé, pelo meio do lamaçal...
pensamos seriamente em fazer um churrasco daqueles dois, mas como a madeira
estava muito úmida, e eles eram muito magros, resolvemos apenas afogá-los no
rio, e pendurá-los pelos pés em alguma árvore.
Pensamos melhor, e resolvemos absolve-los para poderem
ajudar na volta, já que teríamos que passar pelos 4587 atoleiros e pântanos,
e os dois foram de grande ajuda (pelo menos psicológica), para a nossa erorme
travessia de 700 metros da Trilha do Telégrafo.
Voltamos, encalhamos, chacoalhamos, chafurdamos e tudo
mais que já conhecíamos, e chegamos novamente na beira do primeiro rio, onde
fizemos um pit-stop para dar uma mijada, e conversar com o Pernambuco e o Zé do
Gato, que já estavam voltando para as suas casas.
O Pernambuco, muito atencioso, nos convidou para
"pousar" na sua casa, que estava além de onde decidimos voltar, e que
teria comida e um lugar para descansarmos, e tentar passar o trecho pior no
outro dia. Reunião de 2 segundos, e agradecemos a hospitalidade, mas prometemos
voltar numa próxima, já que não conseguiríamos chegar na casa dele antes de
anoitecer, e também lembramos da "enchente". Como não havia planos
para mudar para aquele lugar, o melhor foi voltar para o bar mais próximo e
recobrar nossas energias.
Atravessamos o rio, paramos em Taquari para nos despedir
de todos que conversamos e que nos ajudaram (apesar de continuarmos não
entendendo o que eles falavam), e seguimos de volta a Itapitangui, onde nos
disseram que haviam bares maravilhosos... paramos no primeiro que apareceu na
frente (há uns 40 Km), pedimos umas geladas e muito amendoim, que era a única
coisa comível (oops!!) naquele lugar.
Tecnicamente falando
A trilha é MUITO difícil, e no nosso caso, impossível
de passar por causa da chuva. As informações que conseguimos, é que só
depois de uma semana de sol forte, que as coisas começam a melhorar por lá, e
que o terreno fica firme, conseguindo andar por cima (e não por dentro). Na
condição que estava, o pessoal não estava passando nem à pé pela parte mais
difícil (que não conhecemos), onde parece que tem subidas fortes e muita lama.
Para fazer de moto, as travessias de rios não devem ser
muito difíceis (se forem como o primeiro), mas com 4x4 (no mínimo 3), não
adianta nem pensar em ir sem guincho. Os carros ou motos devem estar muito bem
revisados, e equipados até os dentes, com peças sobressalentes e tudo que
puder imaginar de suprimentos. Água não é problema, pelo menos de sede ninguém
morre (pode morrer afogado).
Não leve nenhum maníaco-depressivo, senão o cara vai
ficar por lá mesmo, além de encher o saco de todo mundo. Quem não estiver a
fim de ficar uns dias com lama até lá (o), não vá!!!
Pelo levantamento que fizemos, a previsão para a
travessia de 15 Km, com 4x4 bem equipados, são de 3 a 5 dias, mas não sei
quais as condições do terreno. De moto, "talvez" dê para passar em
um dia, e voltar no outro.
Depois de terminada a trilha, de volta para SP, fui fazer
a limpeza do equipamento, e o saldo final foi o seguinte:
Bota Esquerda
- 1 par de luvas de boxe
- 4 meias velhas
- 3 sapos mortos
- 4 bernes
- 1 filhote de cascavel intoxicado
- 3 xerox da certidão de nascimento de D. Pedro I
- 1 pneu Michelin
- 1 lobo guará
- 1 Suzuki RMX em bom estado
- 2 jipeiros paranaenses
Bota direita
- pipocas (muitas)
- 3 bichos do pé estatelados
- 1 celular motorola
- 16 minhocas
- 1 macaco hidráulico
- 1 retro-escavadeira semi-nova
- 1 cartão de embarque do 14 bis
- mais 3 sapos
- 1 coador de café usado
Capacete
- 1 coleção completa do Pokemon
- 1 bola de capotão
- 1 chapéu de cowboy com a imagem da Virgem Maria
- 1 faca ginso
- 2 pares de óculos modelo 1406 (com lentes sobressalentes)
- 1 aparelho de ginástica
- 3 latas de cerveja vazias
- 1 britadeira
- 1 celular nokya
- 1 jipe 1942
Infelizmente não tiramos fotos do local, pois não tínhamos
equipamentos à prova de bala, e certamente seria mais uma baixa no meio da
trilha!!!
Agradecemos à todos que nos ajudaram, passaram informações,
deram dicas, e tudo mais.
[]'s reconhecidos
Ricardo Queiroz e Fausto Spina
São Paulo - SP
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